Ontem por amor, hoje por status

Sempre acreditei que a corrida precisa cumprir uma função em nossas vidas. Deve preencher alguma lacuna, deve tirar do eixo ou nos colocar nele ou simplesmente, a nossa válvula de escape para esse mundo de pernas para o ar. Há quem diga que a corrida nos dias de hoje perdeu o seu verdadeiro caráter – e a necessidade do “selfie-run” transfigurou o que antes era feito para ser admirado e hoje, apenas feito por status.

(corrida)

Talvez eu não seja a única corredora que esteja cansada em ver a banalização que esse esporte passa, mas diferentemente de muitos, eu tenho um espaço para dizer o que posso (ou seria desabafar o que preciso?). De qualquer forma, ser blogueira tem lá suas vantagens, mesmo que para mim sejam minúsculas e a principal delas é: apontar o que me desagrada e tentar a todo custo, mostrar o lado “b” para muitos que só conseguem enxergar o que é colocado em suas vistas.

Mais do que nunca, observamos inúmeras pessoas que hoje correm por status, para aparecer e ser visto, entrando em maratonas de subidas sem saber o que é uma no asfalto, em “Cruces” sem entender o que é uma prova duríssima em seu próprio país e seguem dando maus exemplos a todos aqueles que já tem uma má impressão da corrida. Essa nova geração running, é persistente ao mesmo tempo que é imatura, e coloca na maioria das vezes, a corrida como algo sem valor algum e sem uma função.

Poucos sabem, mas a corrida de ontem não tinha a mesma popularidade que tem hoje. Quem corria, tinha que se permitir fazer o esporte que amava do modo “cru”. Como? Sem as milhares de possibilidades de roupas confortáveis que temos para comprar, sem o último Garmin lançado no mercado ou até mesmo um parque na porta de casa para trotar a hora que bem quiser. Esse último ponto digo especificamente para as mulheres que antes – pasmem – não podiam correr sozinhas.

O melhor daquela época? Os que viam na corrida um modo de transformar, ajeitar ou simplesmente construir, corriam. Deixavam o ego de lado e iam, sejam por performance, seja por concluir um treino. Eles agiam por amor e principalmente, com verdade. Não digo que hoje não vemos isso, já que a velha guarda ainda está aqui para nos provar o que é fazer as coisas pelo coração, mas essa geração talvez não se dê conta da curva mal tomada.

Com uma função, a corrida torna-se algo, sem ela, acaba sendo algo banal, totalmente sem compromisso. Sou a favor de que cada vez mais as pessoas corram, mas sou contra o modo sem alma que muitos fazem, visando apenas algumas curtidas a mais no Instagram ou um número elevado de seguidores. Fui ensinada – logo quando entrei nesse mundo – a respeitar o esporte acima de tudo e perceber que com ele, eu posso ser uma outra pessoa – e que ninguém tem nada a ver com isso. Quer queiram, quer não, a corrida é muito maior do que qualquer blog, site, acessos, jabás ou coisa do tipo.

8 Comentários

  1. Infelizmente existe e sempre irá existir os falsos corredores, aqueles que se inscrevem nas provas por farra, que se postam bem na frente na largada e depois saem andando atrapalhando que está ali pra correr de verdade, que jogam lixo na pista e cortam caminho pra chegar mais rápido,

  2. Oi Kauana! Gostei do seu texto e concordo com sua visão de corrida nos dias de hoje, estão suando mais pra pegar o melhor ângulo da foto do que no hardcore da corrida. Mas acho que deveríamos apoiar o, perfeitamente colocado, “selfie-run”. Creio ser bem melhor o povo ostentar a saúde (ou pseudo-saúde), do que jogar nas redes sociais cada coisa mais desnecessária que a outra. Sem contar que, de um jeito ou de outro, estão praticando alguma atividade bacana. Agora só não podem, no meio da corrida, parar na nossa frente pra tirar foto…aí a parada fica tensa. Haha

  3. Não acho que isso seja uma coisa ruim. Eu vi isso acontecer com a fotografia, com a gastronomia, com o homebrewing, com a enofilia e com vários outros hobbies que eu tenho, e nunca achei que fosse uma banalização, mas a popularização – o que é totalmente natural. Conforme um número maior (e mais diversificado) de pessoas começa a curtir o mesmo assunto, cada um vai curtir do seu modo, e alguns vão para tirar fotos, outros não. Isso não é ruim, isso é diversificar. Fico feliz de saber que essas pessoas estejam correndo, depois das selfies – é bom para todo mundo, no final. A popularização dos esportes vai criar corridas mais legais, mais acessíveis, mais ciclovias, mais importação de gadgets legais que antes não chegavam no Brasil e todo mundo ganha com isso. Como cada um vai usar isso, é de cada um. O modo “cru” é legal para a gente se lembrar, rola uma nostalgia, mas não é sempre o melhor. E se for, nada impede de colocar o tênis e ir para a rua correr, independentemente do que os outros estão fazendo na rede social deles. Senão, no final, vira aquela rixa de banda de rock de “eu já gostava disso antes de ser modinha, você só gosta do disco novo”. E daí, né? Cada um se diverte com a música que gosta e todo mundo fica feliz no final. 😉

  4. Olá! Seu texto me deixou feliz, principalmente pela preocupação de algumas (ou, tomara, muitas) pessoas a respeito dos caminhos que a corrida irá seguir em um futuro próximo.
    Tenho conhecidos(as) que se enquadram no perfil “selfie-run”, mas me considero um “corredor de alma”. Confesso que estranho certas atitudes como as que você descreveu, inclusive durante as provas, mas poucas vezes me senti incomodado a respeito. Acho que não é com essas pessoas que devemos nos preocupar. Pode ser que elas sejam apenas “modinha” (e moda passa, junto com elas) ou pode ser que elas tomem gosto de verdade pela corrida, cabendo até mesmo a nós servirmos de exemplo – e a elas decidirem o que querem.
    Mas, acima de tudo, acredito que são as empresas que investem dinheiro (e precisam de retorno) que podem (ou não) causar danos. Empresas de artigos esportivos, mídia especializada, ORGANIZADORAS (destaco estas, porque causam grande impacto no nosso calendário). Enfim, elas direcionam grande parte das atividades e da percepção que temos das corridas, além de muitas vezes terem responsabilidade direta ou indireta no comportamento dos nossos camaradas de asfalto/pista/trilha/montanha/etc.
    A corrida tem crescido em número de participantes. E com isso, mais dinheiro é movimentado. Isso pode ser bom, pois atletas profissionais poderão ser melhor remunerados, terão maior visibilidade, surgirão novas tecnologias e a corrida pode ganhar em qualidade como um todo. Mas pode ser também pode ser pernicioso… casos de atletas profissionais se dopando para atingirem resultados e obterem prêmios/patrocínios/visibilidade poderão acontecer com frequência ainda maior do que infelizmente já ocorre, regras definidas pelas entidades reguladoras baseadas única e exclusivamente em promover “o espetáculo”, para alavancar ainda mais dinheiro das massas, etc…
    Este é um momento MÁGICO para a corrida. Repito: um momento MÁGICO e ÚNICO, onde nada de ruim aconteceu por influência financeira e, do fundo do coração, tomara que continue assim. A nós, cabe zelarmos, darmos o exemplo com nossos passos e promovermos temas para diálogo. Textos como este seu, Kauana, que expressam o sentimento dos corredores mais avançados, dos mais experientes e também daqueles que simplesmente apreciam a corrida “pura” ou do modo “cru”, como você escreveu.
    Um grande abraço e ótimas corridas a todos!

  5. Comecei a correr tem 2 meses, ainda sou mirim nessa história. Mas comecei por saúde e acredite não foi pelo modismo. Foi pela praticidade já que viajo muito a trabalho e as vezes não encontrava academia por perto no horario que podia treina. Já a corrida é “livre” a rua sempre está ali. Ainda não morro de amores, mas também não morro de odio.

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