Maratona do Polo Norte por Pedro Santos

Com enorme orgulho publico o relato do Médico e Maratonista Pedro Santos na Maratona do Polo Norte. Ele foi um dos três brasileiros a participar desta prova. Obrigado Pedro por este ótimo relato e fotos.

Bse

Polo Norte.

Nas minhas memórias de infância, penso em Papai Noel e renas, mas estava ali para outra coisa: correr uma maratona. Apenas 5 brasileiros até hoje correram lá e eu sou um deles.

Após várias paradas chego a Longyearbyen, cidade de 2800 habitantes situada na ilha de Spitzbergen, arquipélago de Svalbard, norte da Noruega. Linda cidade, a temperatura já era de -20 Graus Celsius, local completamente adaptado as baixas temperaturas, cercada por placas onde estava desenhado um urso branco, cuja mensagem era a seguinte: a partir deste ponto e por sua conta e risco, leve uma arma. Numa ilha onde há mais ursos polares que seres humanos e bom ter cuidado.

urso

Na preleção, Richard Donovan, organizador da prova, nos fala da beleza e perigos de correr uma maratona no Polo Norte.

No outro dia, partimos para o acampamento Barneo, este acampamento é uma base russa de pesquisa que fica erguido durante 1 mês, não pode ficar mais tempo devido ao perigo do degelo. Ao sair do avião a constatação: a temperatura havia caído 10 Graus e estávamos a -30 Graus Celsius! Como correr numa temperatura dessas?

Tenda

Nesta época do ano temos sol 24 horas na região, a corrida iria começar exatamente a meia-noite, posteriormente, Richard adiou a corrida por mais meia-hora. Um competidor americano teve a brilhante ideia de bater uma foto com os pês no gelo: teve uma grande queimadura, com bolhas, não conseguiu nem começar a corrida.

O circuito consistia em 9 voltas, por vezes o gelo estava bem duro, facilitando o deslocamento, por vezes era fofo, onde se afundava até o joelho. Pessoas mais leves tinham uma vantagem, não era o meu caso.

O perigo de algum urso estar próximo era real, havia sempre alguém com arma em punho para uma eventual situação… o que, felizmente, não ocorreu.

Fui no intuito de completar a maratona, bem devagar. Não tenho como treinar serio, pois sou médico e trabalho bastante, também queria provar que era possível, uma pessoa comum, que vai de 2 a 3 vezes por semana na academia, completar a prova.

Em todas as voltas parei na tenda principal para comer e beber algo, em 4 vezes também fui para a tenda onde deixamos nossas roupas, pois tive que trocar devido ao congelamento das mesmas.

Após finalizar a primeira volta fui para a tenda, logo após, chegou Carolina, repórter de uma equipe de TV brasileira, que também estava competindo, ela perguntou por água para a sua equipe, porém o pessoal da prova não fornecia égua (os russos forneciam apenas égua quente), ofereci uma das minhas garrafas que havia trazido da Noruega.

Na minha terceira volta passei por uma competidora chinesa, Janis Chan, ex-apresentadora de TV em Hong Kong, ela estava mal, cambaleando, falei com Richard para dar atenção para ela, quando a mesma completou a volta, o pessoal da prova a levou para a tenda principal e deu o suporte necessário.

Jeremy, competidor neozelandês, pela quinta volta, foi ao banheiro para urinar, ficou parado durante uns instantes, após foi a tenda principal, porem já estava desenvolvendo hipotermia, não conseguia mais correr, durante as próximas três horas ficou parado, tremendo.

Também teve o caso de um outro competidor chinês, Quincy Wong, que havia começado a ter congelamento nas porções mais distais dos dedos da mão, porem melhorou e conseguiu completar a corrida.

Bem, também tive alguns problemas: tive que trocar varias vezes de equipamento, numa destas trocas fiquei com apenas uma luva, logo apos senti muito frio e dor na ponta dos dedos, 200 metros adiante a dor era lancinante e já começava a sentir na base dos dedos, o que poderia fazer? Realmente o medo bateu, tive que colocar as mãos, fechadas, nos bolsos da jaqueta e completar a volta assim.

beth
Beth e Pedro

Mas a pior parte para mim foi quando não consegui fixar, durante uma volta, a proteção em uma de minhas orelhas, esta congelou, desenvolvi uma importante queimadura pelo frio, após a prova fui socorrido na tenda pela doutora Beth, medica inglesa recém-formada, que me deu os primeiros socorros. Minha orelha ficou gigante, com bolhas, tive receio que iria perder um pedaço, os outros competidores ao olharem também, mas não ocorreu.

No total fiquei aproximadamente uma hora e meia parado nas tendas. Alguns tiveram a sorte de ter uma equipe para suporte, inclusive levando liquido e comida junto da pista de corrida, o que reduzia, em muito, o tempo de parada.

Medalha

A chegada foi um grande alivio! Tinha conseguido fazer a prova, e, claro, estava com muito frio, fui para a tenda, troquei as roupas por outras não congeladas e fiquei embaixo de um saco de dormir, fornecido pelos russos, tremi durante meia-hora.

Algumas horas após o termino da prova, fomos com helicópteros para o Polo Norte geográfico, munidos com um GPS, pois na verdade estamos numa calota de gelo em cima de um oceano e o Polo Norte geográfico muda a cada instante, de acordo as marés.

Os helicópteros eram uns MI-8, sobreviventes da guerra Russia-Afeganistao, estes helicópteros já haviam combatido a Al-kaeda, de Bin Laden. O frio era absurdo, aproximadamente – 40 Graus Celsius; os russos, com o GPS, nos mostraram onde era o Polo Norte, circundamos o mesmo, todos os fusos horários foram passados durante menos que um minuto, caminhava um metro para um lado era três da tarde, mais uns passos já era três da manha.

MI8

Houve a possibilidade de retorno para Svalbard algumas horas após, peguei o primeiro avião, pois minha orelha precisava de cuidados, aquele frio era muito prejudicial para a recuperação (de -30 pra -20 Graus já fazia uma grande diferença).

Uma das coisas que me chamou a atenção foi que a combinação do frio com a corrida em cima de gelo faz com a recuperação física seja muito rápida após a maratona, o atrito e muito menor para as articulações e músculos, um dia após a maratona estava 100% na parte osteomuscular.

À noite, tivemos a entrega dos prêmios para os vencedores. Naquela oportunidade, Renaud Michel, francês, segundo colocado na corrida, falou a respeito do motivo de sua corrida: Marine, sua filha, havia morrido há 5 meses, vitima de fibrose cística. Já havia conversado bastante com Renaud, ela faleceu enquanto estava na fila de transplante para coração e pulmão, falei que trabalhava como medico no primeiro hospital de transplantes da América Latina e que minha causa de estar correndo era exatamente fazer com as pessoas falassem em casa sobre doação, enfim isto foi o mais emocionante de minha viagem. Digno de nota foi que seu filho, Erwan, de 13 anos também estava na prova, tornando-se a pessoa mais nova a completar a maratona. Outro brasileiro, Marcelo Alves, trouxe um cartaz para a doação de Medula óssea, com certeza um gesto nobre.

DSC01351

A maratona do Polo Norte foi algo inesquecível, os lugares que conheci as amizades que fiz, enfim, valeu muito a pena. Com certeza, a organização da prova pode ser melhorada em alguns aspectos, mas a logística para a mesma e muito grande e a simples realização de uma corrida naquele local já e algo incrível.

Cinco dias apos corri uma maratona na Holanda, bati meu recorde, mas isto e outra historia…

Pedro Santos

11 Comentários

  1. Muita LOUCURA, estou treinando forte para minha 2° Maratona Rio dia 07/07/2013, quem sabe algum dia faço uma dessas doideiras polo norte ou deserto do atakama, parabéns pelo desafio vencido e pela causa nobre.

  2. Esqueci de algo importante no relato: Ziyad Rahim , paquistanes vivendo no Catar entrou para o Guiness Book por ser a pessoa que, em menor tempo, correu maratonas em todos os continentes e no Polo Norte, entrando para o Grand Slam Club. Parabéns para este grande amigo, quarta maratona que corremos juntos!!!

  3. Pedro que loucuraaa!! Muito legal!! O máximo o texto!!!! Que baita coragem a tua!! PARABÉNSSSS!!! E a orelha, melhorou??? Não vi a reportagem no esporte espetacular… que pena. Grande bjo p/ ti!!!

  4. Pedrinho! Que orgulho (nao cansamos de dizer!)! Tu és guerreiro e um baita exemplo para todos. O teu relato está demais!! Adorei sentir a real do desafio atraves das tuas palavras!! Te admiro muito!! Tu mereces correr as corridas mais espetaculares e conhecer os lugares mais lindos do mundo. Bjs

  5. Grande realização! Estava temeroso em relação as adversidades e a sua pouca preparação. Graças a Deus correu tudo bem e você voltou em segurança. O Grand Slam Club já tem uma cadeira te esperando… Abração!

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